Sedentarismo e má alimentação não determinam obesidade, indica estudo


terça-feira maio 18, 2010

Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP relacionou o consumo de determinados alimentos e o padrão de atividade física com o excesso de peso num grupo de adolescentes de Piracicaba, no interior de São Paulo. Surpreendentemente, não foram verificadas relações diretas entre um padrão alimentar inadequado e o hábito de vida sedentário com o excesso de peso. “Esperávamos que os adolescentes sedentários, que consumissem maior quantidade de doces e refrigerantes, apresentassem maior ganho de peso. Enquanto aqueles mais ativos fisicamente, que consumissem mais frutas, legumes e verduras ganhassem menos peso”, esclarece a nutricionista Carla Cristina Enes, autora da pesquisa. Segundo ela, a motivação para a realização do estudo foi o aumento da prevalência de excesso de peso entre jovens nos últimos anos, tendo em vista que os principais fatores ambientais determinantes da obesidade são a alimentação inadequada e a vida sedentária. Entre 2004 e 2005, foram entrevistados 256 adolescentes, de ambos os sexos, com idade entre 10 e 16 anos, de escolas estaduais no município de Piracicaba. Carla aplicou questionários para obter informações sobre consumo alimentar, prática de atividade física, tempo dedicado a atividades recreativas de baixa intensidade (TV, videogame, computador), entre outras questões. “Realizamos também uma avaliação antropométrica (peso e altura) para identificar o estado nutricional dos adolescentes”, explica. A pesquisadora relata que esperava encontrar associações entre o padrão de atividade física, mais especificamente em situações de sedentarismo, com o excesso de peso. Entretanto essa relação não foi verificada. “O consumo de doces e bebidas artificiais adoçadas (refrigerantes, sucos artificiais, etc.) também não apresentou associação com o ganho de peso”, explica. Computador e refrigerantes Os dados mostraram aumento no uso de computador e no consumo de bebidas artificiais adoçadas no período de um ano. “Houve redução do consumo de gorduras, sucos naturais com açúcar e alimentos com elevado teor lipídico, como pipoca, pizza e salgadinhos. O consumo de frutas, verduras e legumes aumentou apenas entre as meninas”, explica a pesquisadora. Segundo Carla, a pesquisa mostrou que o consumo de alimentos com elevado teor lipídico e de sucos naturais adicionados de açúcar associou-se positivamente ao aumento do índice de massa corporal (IMC). “Quanto maior o consumo desses grupos de alimentos maior foi o ganho do IMC no intervalo de um ano”, esclarece. Carla ressalta a importância das pesquisas sobre hábitos alimentares e atividade física devido à complexidade de fatores que causam a obesidade. Segundo a nutricionista, a doença é fruto da exposição acumulativa a diferentes fatores de risco durante as primeiras fases da vida. E sua prevenção ainda na adolescência é fundamental para controlar outras doenças crônicas e conduzir à melhoria da qualidade de vida da população. “A partir da identificação dos principais fatores ambientais que favorecem a ocorrência de obesidade, políticas públicas mais efetivas podem ser elaboradas e colocadas em prática na tentativa de conter o crescimento da obesidade entre jovens, já que este pode ser considerado um problema de saúde pública”, conclui. A pesquisa foi orientada pela professora Betzabeth Slater Villar e defendida no Departamento de Nutrição da FSP como tese doutorado em abril de 2010.