Brasileira que perdeu movimentos tenta terapia polêmica


terça-feira setembro 16, 2008

Bonita, inteligente e cheia de amigos, Daniela Bortman sofreu um acidente de carro em 1º de abril de 2006. Perdeu os movimentos dos braços, pernas e tronco. Tinha 23 anos.

No início deste mês, ela viajou a Pequim atrás de uma terapia polêmica com células-tronco. Cerca de 24 horas após a cirurgia, realizada na última segunda-feira, sentiu algo diferente. “Quando entrei no quarto, ela estava eufórica”, conta o pai da jovem, o neurocirurgião Alberto Bortman, 52. Daniela podia mover o punho esquerdo.

O procedimento em questão só existe na China. Consiste, em linhas gerais, no transplante de células gliais olfativas extraídas de fetos abortados. O aborto é permitido no país.

Os detalhes do tratamento não são divulgados de forma transparente, conta a geneticista Lygia Veiga Pereira, professora da USP. Ainda não se conhecem os efeitos a longo prazo, como os riscos de inflamações ou de tumores.

No Brasil, há pesquisas com células embrionárias desde 2005, afirma o neurocientista Stevens Rehen, diretor de pesquisas do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mas, fora a China, em nenhum país os estudos chegaram à fase clínica (com humanos). “Há um risco intrínseco.”

No hospital, pai e filha conheceram outros pacientes que se submeteram ao método. Os resultados, diz Alberto, são os mais variados possíveis.

Ainda assim, um vídeo feito por um amigo de Daniela mostra cenas impactantes. Raphael Danieli, 24, foi à China em junho e, a pedido da jovem, procurou o médico Huang Hongyun, criador do método. Nas imagens, Raphael mostra um jovem andando pelo hospital –segundo o relato, antes da cirurgia, feita há quase dois anos, esse paciente mal dava três passos. O vídeo está no YouTube.

“A Dani disse que esse vídeo foi muito importante, mas acho que ela iria [à China] mesmo que eu só trouxesse um texto de um parágrafo”, conta Raphael.

Já a vereadora Mara Gabrilli (PSDB), 40, tentou demovê-la da idéia. “As pessoas acham que não têm nada a perder, mas têm”, diz Mara, que ficou tetraplégica há 14 anos em um acidente de carro. Ela conheceu Daniela por meio de amigos em comum. “Torço por ela, mas vou esperar as pesquisas brasileiras avançarem”, diz Mara.

“Não é como uma virose. Não tem tempo para esperar”, comenta a dentista Mirian Bortman, mãe da jovem. A filha, diz, busca ser o mais independente possível: continua dividindo um apartamento com amigas em Taubaté (a 130 km de São Paulo), onde estuda medicina. Precisa, porém, de enfermeiros –a enfermagem e a fisioterapia custam R$ 8 mil por mês.

Os últimos dois anos, aliás, foram, para os Bortman, marcados por brigas judiciais contra o plano de saúde e os dois motoristas envolvidos no acidente –Daniela voltava de uma festa com um colega quando houve a colisão.

“O processo contra um deles foi arquivado. O outro teve de pagar uma ambulância para o município”, diz Alberto. “É muita impunidade.”